quarta-feira, 11 de junho de 2008

Macaco-prego e o capitalismo selvagem

Vídeo: Macaco-prego Cebus apella nigritus video VI



Macaco-prego entende valor simbólico de 'dinheiro', afirma pesquisa
Em teste, bichos conseguiram usar objetos com valor arbitrário para 'comprar' comida.
Segundo cientistas, animais tendiam a 'pagar' altas somas por alimentos mais cobiçados.

O capitalismo selvagem ainda não chegou ao mundo dos primatas não-humanos, diferentemente do que o título desta reportagem parece indicar. O valor do estudo feito por um grupo de pesquisadores italianos com macacos-pregos é literalmente simbólico: os bichos parecem ser capazes de entender a relação entre um símbolo e a coisa que ele simboliza -- no caso, vários tipos de "moedas" que os símios aprenderam a trocar por guloseimas.

Se o trabalho de Elsa Adessi e seus colegas do Conselho Nacional de Pesquisas de Roma estiver correto, os macacos-pregos (Cebus apella) entram para um grupo muito seleto de espécies com capacidade confirmada de manipular símbolos, por enquanto integrado apenas por humanos e chimpanzés. É verdade que os bichos se atrapalham um pouco na hora de "fazer as compras", dando mais "dinheiro" do que o necessário para "pagar" alimentos que eles cobiçam muito. Mas, de qualquer maneira, continuam cientes de quais comidas são mais "caras" que outras.

O grande problema de Adessi e companhia, que trabalham na Unidade de Primatologia Cognitiva da instituição italiana, era garantir que os bichos tinham mesmo apreendido o valor simbólico da questão. Afinal, quase todo tipo de animal consegue associar objetos com comida por meio do condicionamento tradicional, coisa que não exige nem um pingo de inteligência.


Gastar, verbo transitivo
A palavra-chave para sair desse dilema é "transitividade". Imagine que, num rodízio de carnes, você prefira picanha a alcatra e alcatra a lingüiça. Logo, se tiver de escolher entre picanha e lingüiça, a primeira carne será a escolhida. Essa propriedade simples -- saber que, se A é melhor que B e B é melhor que C, então A também é melhor que C -- é conhecida como transitividade, e parece ser uma ótima maneira de medir se uma pessoa ou animal está entendendo o processo todo.

Pois bem: o que os cientistas italianos fizeram foi, em primeiro lugar, usar um trio de alimentos para ver quais eram os preferidos dos cinco macacos-pregos envolvidos no experimento. (O trio da macaca Paprica, em ordem decrescente de "valor econômico" para o primata, era composto por pistache, abacaxi desidratado e semente de girassol). Depois, treinaram os bichos para associar um tipo de "moeda" a cada comida. (De novo, no caso de Paprica, as moedas eram um tubo de plástico preto, um ganchinho de latão e uma ficha verde, parecida com as de pôquer).

Finalmente, chegou a hora de verdade. Os bichos, agora, tinham de escolher entre dois tipos de "moeda", colocados numa gaveta que podia ser puxada até sua gaiola. Depois, trocavam-na pela comida correspondente com o "caixa" -- no caso, o pesquisador. Para complicar a vida dos símios, o valor em jogo podia variar -- um tubinho e quatro fichas, por exemplo. Desse modo, a escolha não era só entre comidas, mas também entre quantidade de comida -- uma só fatia da guloseima mais desejada ou montes da refeição considerada apenas média.

Em geral, a coisa funcionou. Em todas as sessões de teste, os bichos escolhiam a "moeda" capaz de comprar o alimento mais desejado. Mas eles tinham dificuldade para pesar os prós e contras, escolhendo a comida mais apetitosa mesmo que ela estivesse em quantidade muito menor do que a outra opção. Para os pesquisadores, isso indica que o sistema simbólico dos bichos é como o de crianças humanas pequenas, ficando meio sobrecarregado com tanta complicação, embora continue a funcionar.
A pesquisa está na revista científica de acesso livre "PLoS One".


Fonte: G1

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