terça-feira, 14 de setembro de 2010

Tapuiassauro, um dinossauro brasileiro no Coração de Jesus

Pesquisadores do Museu de Zoologia da USP descobriram, em 2007, uma nova espécie brasileira de titanossauro, só revelada agora. O trabalho foi acompanhado com exclusividade pela reportagem do Estado


Jefferson Silva observa, curioso, os cientistas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo arrebentarem uma corcova de terra próxima de sua casa, na região rural de Coração de Jesus, norte de Minas Gerais. O trabalho começa bruto, à base de enxadas e picaretas. Depois vêm os martelinhos, pincéis e outras ferramentas mais delicadas. Pouco a pouco, em meio à poeira, o que parecia ser só um bloco de pedras soterrado e sem graça começa a tomar o contorno de um osso. Um grande osso.


"Quando a gente era pequeno, brincava que aqui era o campo dos dinossauros", relembra Silva, de 17 anos, com um sorriso tímido nos lábios e sem parecer se importar com o calor de 40° C que castiga os forasteiros da universidade paulista. "Nunca imaginei que pudesse ser verdade."

Ele conta que sempre viu pedaços de ossos por ali. Achava que eram de vaca ou de algum outro bicho da roça - nunca de um dinossauro de verdade. Mas eram exatamente isso. Muitos milhões de anos atrás, os ossos que os cientistas parecem esculpir da terra pertenceram a um titanossauro de 13 metros de comprimento e 10 toneladas de carne e osso. Um réptil gigante e pescoçudo que, segundo os pesquisadores, morreu à beira de uma lagoa e teve sua carcaça devorada antes de ser soterrado por um deslizamento de lama, cerca de 120 milhões de anos atrás.

O "campo dos dinossauros" que Silva pensava existir apenas em sua imaginação era a realidade da paisagem naquela época, em meados do período Cretáceo. Dinossauros de todos os tipos, grandes e pequenos, carnívoros e herbívoros, caminhavam por aquelas bandas no interior de Minas. E alguns deles, felizmente, tiveram seus restos preservados para contar a história.

Os primeiros relatos de que havia fósseis na região começaram a ecoar pelo sertão em maio de 2005, quando José Adão Pereira de Souza, um dos moradores mais folclóricos de Coração de Jesus - conhecido como Zezinho -, resolveu prestar atenção em alguns daqueles cacos estranhos de osso que pareciam aflorar de um barranco próximo. Inicialmente, tal qual o garoto Silva, todos imaginavam ser ossos de vaca. Zezinho, porém, notou que os cacos eram pesados demais. "Pareciam pedra", relembra ele. "Osso de gado costuma ser mais leve."

Curioso, levou um fragmento para casa - desencadeando, assim, uma sequência inusitada de eventos e coincidências que levaria, três anos mais tarde, a uma das descobertas mais incríveis da paleontologia brasileira.

Zezinho ficou com o osso em casa por algumas semanas, sem dar muita importância. Até que, um dia, um oficial de Justiça bateu à sua porta para entregar um documento. Ele viu o osso e perguntou do que se tratava. Zezinho não sabia. De volta à cidade, o oficial comentou sobre o caso com outra figura folclórica da região: Ubirajara Alves Macedo, o Bira. Nascido e criado em Coração de Jesus, Bira é a enciclopédia viva da cidade. Se alguém pudesse descobrir de onde vinha aquele osso, esse alguém era ele.

Bira não perdeu tempo. Foi até a casa de Zezinho, pegou o caco emprestado e começou a ligar para todas as universidades mineiras que conhecia, pedindo que algum pesquisador fosse dar uma olhada. Ninguém foi. Só quem se interessou pela história foi uma rede de televisão local, que fez uma reportagem e levou um espeleólogo a tiracolo. O espeleólogo (um especialista em cavernas) foi até o local onde Zezinho havia coletado o fragmento, cavou um pouco mais e descobriu uma costela encravada na rocha com mais de 1 metro de comprimento. Disse que era um osso de preguiça-gigante.

Bira não se convenceu. "Meu pai sempre dizia que Coração de Jesus era terra de dinossauros, que um dia a gente acharia um bicho desses por aqui." Determinado a cumprir a profecia, ele continuou a ligar para universidades. De novo, ninguém foi.

O elo perdido. Até que a história foi bater nos ouvidos de Márcio Vieira Nobre, um jovem biólogo local, cujo pai era muito amigo do pai de Bira. No fim de 2005, ele estava de férias da faculdade quando soube, pela namorada, que havia um fóssil misterioso na cidade. Nobre também não perdeu tempo. Foi até a casa de Bira, examinou o osso e começou também a ligar para universidades pedindo ajuda. Ninguém apareceu.

Foi então que Nobre se lembrou de um sujeito no Orkut que dizia trabalhar com escavações - um baixinho troncudo que usava chapéu de Indiana Jones e atendia pelo apelido de Wolverine. Os dois não se conheciam, mas compartilhavam um hobby que acabou se tornando o "elo perdido" entre o dinossauro de Coração de Jesus e os pesquisadores da USP: ambos tinham uma caminhonete Rural, da década de 70, e por isso pertenciam a uma mesma comunidade no Orkut.
Israel Cruz, Marylene Ferreira e as filhas, com um pôster feito pelos pesquisadores para decorar a fazenda da família, onde foi encontrado o fóssil do Tapuiassauro. Foto: Filipe Araújo/AE
"Ele viu uma foto minha no Orkut de chapéu e pensou ‘Esse cara tem pinta de paleontólogo’", brinca Ricardo Domingues, o Wolverine - que, na verdade, é geólogo, mas trabalha com projetos de paleontologia no Museu de Zoologia da USP. Em setembro de 2005, ele recebeu uma mensagem de Nobre, contando sobre o fóssil de Coração de Jesus. Wolverine, então, contou a história para o professor Hussam Zaher, curador de herpetologia e paleontologia do museu.

Zaher ligou para Nobre. Quando soube que a tal costela tinha mais de 1 metro, colocou a equipe no carro e rumou para Minas. "Só podia ser dinossauro", apostava Zaher.

No dia 14 de setembro de 2005, Zaher chegou a Coração de Jesus. Encontrou com Nobre, que o apresentou a Bira, que os apresentou a Zezinho, que os levou até o barranco onde estava a costela encravada. Puseram-se a cavar e, não demorou muito, descobriram outros ossos fossilizados. E não era preguiça-gigante, não. Era dinossauro. Dos grandes. "Foi muito emocionante. Nunca imaginei que teria contato com uma coisa dessas", relembra Nobre. Entre outubro e dezembro de 2005, os pesquisadores fizeram três expedições ao local, que ficou conhecido como Ponto 1. Desenterraram outras costelas, vértebras e um úmero de mais de 1 metro.

Mas essa não é a descoberta principal.

A descoberta mais importante - um crânio completo de titanossauro - foi feita a 2 quilômetros dali, no chamado Ponto 4, onde o garoto Silva costumava brincar de "campo dos dinossauros", e que os cientistas só começaram a escavar em 2007. "Desde então não conseguimos mais sair daqui", conta, entre uma enxadada e outra, o paleontólogo Alberto Carvalho, responsável pelos trabalhos de escavação e preparação do fóssil.

A última expedição de coleta foi em março deste ano. Entre os Pontos 1 e 4, os pesquisadores já coletaram uma grande quantidade de fósseis, que podem representar até quatro animais diferentes. E ainda há muito o que explorar na região. "Se continuarem cavando, vão achar mais coisa, com certeza", profetiza Zezinho, montado em seu cavalo.

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Quem matou os dinossauros?
Hipótese mais aceita diz que foi um grande asteroide que colidiu com a Terra, 65 milhões de anos atrás. Mas será só isso? Mistério científico ainda não foi resolvido

Alguma coisa muito grave aconteceu 65,5 milhões de anos atrás. Até essa data, que marca o fim do período Cretáceo, as camadas mais antigas da crosta terrestre estão cheias de dinossauros. De repente, eles desaparecem. Dali em diante, quem prolifera e assume o comando da cadeia alimentar são os mamíferos, grupo que eventualmente daria origem aos seres humanos - que, milhões de anos mais tarde, olhariam para trás e se perguntariam: Quem matou os dinossauros?

É um enigma que atormenta e fascina os cientistas há quase dois séculos. Um dos maiores mistérios sobre a evolução da vida na Terra. O principal suspeito nas investigações é um asteroide de 10 quilômetros de diâmetro - maior do que o Monte Everest - que teria atingido o planeta onde hoje fica a península de Yucatán, no México, detonando um processo catastrófico de aberrações climáticas, terremotos e tsunamis, que acabou por exterminar grande parte dos grupos de fauna e flora daquela época. Incluindo os dinossauros, os pterossauros, os grandes répteis marinhos e praticamente todo e qualquer animal com mais de 25 quilos.

A acusação conta com uma série de evidências a seu favor. Mas também está repleta de interrogações. Por exemplo: se o impacto foi tão catastrófico a ponto de exterminar os dinossauros, como é que os mamíferos, anfíbios e todas as outras linhagens de animais e plantas que existem hoje sobreviveram? Seria o impacto o único culpado? Ou teria ele agido em cumplicidade com outros agentes exterminadores? Talvez um vulcão, ou mesmo outros asteroides de grande porte?

Uma das poucas certezas nessa história é que um asteroide colidiu com a Terra 65 milhões de anos atrás. A assinatura geoquímica desse impacto pode ser lida na forma de elevadas concentrações de irídio, encontradas na camada geológica que marca a transição entre os períodos Cretáceo e o Terciário (o famoso limite KT, também chamado pelos geólogos de K-Pg, ou Cretáceo-Paleógeno).

O irídio é um metal raríssimo na crosta terrestre, mas muito comum em asteroides. Coincidência? Não. As concentrações de irídio em toda a camada do limite K-Pg (que recobre o solo no qual os dinossauros pisavam pouco antes de morrer) estão muito acima das concentrações naturais encontradas em qualquer outra camada da Terra.

Seguindo o rastro de distribuição desses fragmentos ao redor do mundo, chega-se ao povoado de Chicxulub, na península do Yucatán. Debaixo do qual, centenas de metros abaixo da superfície, encontra-se uma cratera de 180 km de diâmetro que, segundo os cientistas, é a cicatriz deixada pelo impacto de um grande asteroide, cujo irídio teria sido lançado na atmosfera e se espalhado pelo planeta, como os fragmentos de uma bomba. As medições indicam que o asteroide tinha 10 km de diâmetro, e que o impacto ocorreu 65,5 milhões de anos atrás. Bingo!

Que um impacto ocorreu, portanto, é fato. Mas seria ele o verdadeiro e único culpado pela extinção dos dinossauros?

O argumento mais próximo de um veredicto foi dado por meio de um estudo na revista Science, publicado em março deste ano. Nele, 41 cientistas fazem uma revisão de tudo que foi pesquisado sobre o assunto nos últimos 20 anos. E concluem que o impacto de Chicxulub foi, mesmo, o responsável pela extinção em massa do fim do Cretáceo.

Só a onda de calor gerada pelo impacto já teria matado tudo num raio de centenas de quilômetros, instantaneamente. Na sequência, além dos terremotos e tsunamis, quantidades gigantescas de enxofre, fuligem e rocha pulverizada foram lançadas na atmosfera, produzindo chuvas ácidas e bloqueando a luz do Sol por um período de vários meses ou até anos, segundo o pesquisador Peter Schulte, da Universidade de Erlangen-Nürnberg, na Alemanha, que coordenou o estudo.

O planeta ficou frio e escuro. A fotossíntese parou. Os herbívoros morreram de fome. Os carnívoros, que se alimentavam dos herbívoros, também. Por fim, estima-se que cerca de 50% das espécies de fauna e flora do planeta nunca voltaram a ver a luz do dia.

Sorte dos mamíferos, que sobreviveram à catástrofe e passaram a dominar o planeta após o sumiço dos grandes répteis.

Asteroide vs. vulcão. Todas as peças, então, parecem se encaixar: a cratera, o irídio, o sumiço dos dinossauros. Mas nem todos estão convencidos. Há quem diga que não foi só isso. Ou até que uma coisa, na verdade, não tem nada a ver com a outra.

A grande "cética" da teoria do impacto é a pesquisadora Gerta Keller, da Universidade Princeton. Suas análises dos sedimentos da cratera de Chicxulub indicam que o impacto ocorreu 300 mil anos antes da extinção. "O impacto de Chicxulub não tem nada a ver com a extinção do KT", disse Keller ao Estado. O que matou mesmo os dinossauros, segundo ela, foi uma grande sequência de erupções vulcânicas ocorridas na região do planalto de Deccan, na Índia. Os gases e partículas lançados na atmosfera pelos vulcões teriam bloqueado a luz solar e alterado radicalmente o clima do planeta por um longo período, com um efeito semelhante ao descrito para o impacto de Chicxulub.

Keller acredita que só isso já seria suficiente para acabar com os dinossauros. Mas é provável que os efeitos dos vulcões tenham sido agravados pelo impacto de um outro asteroide, cuja cratera ainda não foi encontrada. O irídio detectado na camada do limite KT, segundo ela, seria desse outro asteroide, e não do de Chicxulub.

Para os autores da revisão na Science, as conclusões de Keller resultam de interpretações equivocadas. "Todas as evidências sugerem que o início da extinção em massa coincide exatamente com o momento do impacto de Chicxulub", disse Schulte ao Estado. "Enquanto as erupções violentas do Deccan começaram 400 mil anos antes, sem causar nenhuma catástrofe global." Também não há evidências de outros impactos significativos naquela época, completa ele. "Só pequenas crateras, cujo impacto teria tido repercussões apenas regionais."

Um outro asteroide do tamanho do de Chicxulub não deve atingir a Terra por pelo menos mais alguns milhões de anos. Tempo suficiente, quem sabe, para resolver o debate.

Fonte: ESTADAO

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