terça-feira, 8 de novembro de 2011

Desmistificando as corujas


Biólogo faz palestras para combater mística negativa que acompanha as corujas


RIO - No interior do Pará, quando uma coruja voa piando sobre uma casa, a primeira reação de muitas pessoas é atirar pedras. A violência é respaldada por uma lenda, segundo a qual, quando a ave passa tão perto, é sinal de que um morador dali morrerá. Enganam-se: a pobre, na verdade, só pia porque vai copular.

Tanta ignorância comoveu Marcos Cruz desde cedo. Aos 14 anos, o paraense decidiu proteger as corujas - e seu primeiro ato foi impedir que o zelador de seu prédio matasse uma ninhada de filhotes, que, segundo o funcionário, traria mau agouro. Uma década depois, Marcos é um biólogo recém-formado e já reconhecido por seu esforço: foi agraciado com o Prêmio Márcio Ayres, dado pelo Museu Goeldi, de Belém, a jovens naturalistas. Hoje o cientista concilia a reabilitação de aves de rapina, no Parque Zoobotânico daquela entidade, com palestras sobre estes animais.

Já passaram por seus cuidados aves de nove espécies, de gaviões de cauda branca a falcões cauré. Mas ainda são às corujas que o biólogo credita sua preferência. E, por ser uma ave muito comum nas cidades, é também a que mais lhe dá trabalho. Volta e meia aparecem espécies como murucututus e suindaras em sua enfermaria, para onde são levadas após terem se chocado com prédios ou levado choques na fiação elétrica.

Os animais feridos, muitas vezes trazidos pelo Ibama ou deixados na portaria do parque por seus frequentadores, costumam ficar por volta de seis meses na reabilitação. A alta demanda faz com que a fila ande mais devagar do que deseja Marcos. Até porque suas aves competem por espaço no ambulatório com mamíferos, répteis e anfíbios.

- Recebemos filhotes carentes de cuidados e aves que estavam em cativeiros, além de muitas que são vítimas de maus tratos nas ruas - revela o biólogo. - É algo que ocorre principalmente com as corujas, alvos de pedradas por supostamente trazerem coisas ruins. Na verdade, elas são importantíssimas por se alimentarem de ratos e pombos, que disseminam diversas pragas urbanas.


E o apetite das corujas não é desprezível: uma família de quatro ou cinco delas come até mil ratos em três meses. Sem elas, portanto, nossa exposição a doenças (e à sujeira) seria imensuravelmente maior.

Aos olhos dos leigos, é difícil enxergar a diferença entre as corujas - além, claro, da cor da pelagem. Mas trata-se de um animal que, durante sua evolução, soube se diferenciar. Existem 230 espécies em todo o mundo. No Brasil, são 25 espécies, nenhuma ameaçada de extinção (apesar da boa pontaria de seus inimigos humanos). A mais comum no país é a suindara, que passa parte de seus 7 ou 8 anos solitária, até arrumar um parceiro. Uma vez "casada", mantém o laço para o resto da vida. Tem umas três ninhadas durante sua união, e restringe seu ciclo social à própria família.


As suindaras odeiam seus vizinhos. Em Belém, segundo Marcos, cada família delas é separada por até 200 metros. Pode parecer muito, mas não para as corujas. Por isso, às vezes, quando passam piando, não estão atraindo a parceira para a cópula. É guerra mesmo.

- É uma espécie que pia constantemente para marcar território, mas, na cidade, é muito difícil que elas tenham o espaço desejado - comenta. - O ideal é que cada família tivesse um quilômetro quadrado só para ela. Como não conseguem esse espaço, o conflito é comum.

As pretensões latifundiárias da suindara não são um mero capricho. Na metade do dia em que dorme, a coruja se adapta bem a quase qualquer lugar - torre de prédio, de igreja, galpão abandonado. Mas, no início da noite, quando acorda para as doze horas de caça, precisa ter pela frente um amplo território onde procurar suas presas.

O aparato da coruja para esta prática é de humilhar qualquer um de nós. Sua audição está entre as mais acuradas do mundo animal. A nitidez visual é dez vezes maior do que a humana. Com baixa luminosidade, essa diferença aumenta para cem vezes.

Na cidade, porém, as predadoras estão sujeitas a ameaças imprevisíveis. Um rato envenenado, uma vez ingerido, também mata a coruja. Mais um motivo que faz cientistas como Marcos ficarem preocupados com a perda de habitat sofrida pelo animal.

- A destruição de florestas, como a amazônica, afeta a sobrevivência das espécies - alerta. - Mais corujas ficam submetidas ao estresse da cidade, onde há pouco espaço para cada uma delas, além de uma dificuldade maior para encontrar suas presas.

Sem falar, claro, no convívio nada saudável com o homem. Apesar disso, Marcos e sua equipe parecem estar colhendo resultados: até 2008, eles registravam, em sua enfermaria e nos arredores do Parque Zoobotânico, 30 mortes por ano de corujas. Hoje, são menos de dez.

Parte do sucesso deve-se à ação preventiva do grupo. Além da reabilitação das aves feridas, eles vão às salas de aula, mostram vídeos sobre as corujas e tentam combater a mística negativa que ela carrega sobre as asas. Não é um trabalho fácil, até porque a má reputação é antiga e nasceu bem longe dos trópicos.

Até o início da Idade Média, na Grécia, as corujas estavam com a bola toda. A ave era associada à deusa Atena, que, segundo a mitologia, nasceu da cabeça de Zeus. Por isso, era vista também como um símbolo de sabedoria.


- Era um animal bem aceito pela população - conta Marcos Caldas, professor de História Antiga da UFF. - Havia até um ditado, algo como "quer dizer que você vai levar mais uma coruja a Atenas?". Significa chover no molhado; era porque havia tantas dessas aves na cidade que não seria necessário ter mais uma.


A coruja aparecia, inclusive, no dracma, a moeda grega que permaneceu em circulação até a entrada do país na zona do euro, em 2001. Sua popularidade, ironicamente, teria sido o motivo que a condenou ao estranhamento com que lida até hoje.

- Em seu culto, os gregos não diferenciavam as formas humana e animal. Ambas mereciam veneração. Por isso, a coruja passou a ser associada, na Idade Média, ao paganismo, algo condenado pelo novo sistema - explica.

Nos últimos anos, outro fenômeno mudou mais uma vez (embora muito timidamente) a imagem das corujas. A saga Harry Potter, assinada pela britânica J.K. Rowling, abordou o animal como uma boa companhia. E os fãs levaram o ensinamento tão a sério que, aqui e ali, houve exageros. Na Índia, o ministro do Meio Ambiente Jairam Ramesh culpou os pottermaníacos pelo extermínio em massa de espécies silvestres da ave.

Ramesh procurou a imprensa no ano passado para queixar-se do "estranho fascínio" que teria encantado inclusive a classe média, afoita por presentear seus filhos com corujas brancas, semelhantes à Edwiges, a ave de estimação de Potter. Milhares de outras, mais escuras, eram mortas em "ocasiões suspeitas", em rituais de magia negra.

O biólogo Marcos e simpatizantes de sua causa mundo afora ainda terão de gastar muita saliva e material hospitalar para livrar as corujas de pedradas e caldeirões - e recuperar um pouco do respeito que elas inspiravam em Atenas.

Renato Grandelle
(oglobo.com.br)

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